Brasil precisará de um exército de profissionais agroflorestais para liderar a transição

24/01/2022

Por Paula Costa* e Valter Ziantoni**

A COP26, conferência da ONU para a discussão das questões climáticas, estimulou as lideranças do cenário agrícola nacional a discutirem e mobilizarem forças para que a agricultura brasileira se torne referência mundial de sustentabilidade pela adoção de práticas regenerativas, como a agrofloresta.

A agricultura é diretamente dependente do clima e, com a situação ambiental global que vivemos hoje, ela se vê obrigada a inovar na busca por resiliência. Questionamentos sobre o modelo de produção vigente, com foco em monocultura de commodities, são cada vez mais constantes e sistemas de produção regenerativos vêm ganhando espaço. O Brasil é o país com maior potencial no mundo para exercer um papel ativo e protagonista na mitigação das mudanças climáticas. E, esse caminho, passa obrigatoriamente pela revisão dos modos de produção do alimento.

Hoje a agricultura é considerada ainda uma vilã do clima e não resolve o problema da fome no mundo. Mas isso nem sempre foi e não precisa continuar assim. A agricultura pode ser o elo perdido entre o ser humano e o planeta. Podemos, de fato, otimizar a conservação do meio ambiente por meio de práticas agrícolas sustentáveis. Uma prova disso é a terra preta de índio, um tipo de solo antropogênico, extremamente fértil, encontrado na Amazônia. A sabedoria dos povos ancestrais da floresta tem muito a agregar à agricultura do futuro. Cabe a nós resgatá-la, combinando-a com o que há de mais moderno em ciência e tecnologia no presente.

A agrofloresta combina soluções ancestrais com conhecimento atual: já sabemos que ela gera resiliência social, ambiental e econômica. Protege e recupera o solo e as nascentes. Aumenta a biodiversidade e a conexão das áreas de conservação na paisagem. Produz alimentos altamente nutritivos, sequestra carbono da atmosfera, gerando inúmeros serviços ambientais e colaborando para a soberania alimentar. Se a agrofloresta é uma solução tão boa, porque é que não ganha escala e não se torna a norma para a agricultura brasileira e mundial?

A resposta é simples: faltam profissionais capacitados para pensar, criar, implantar, manejar e replicar sistemas produtivos biodiversos. A PRETATERRA tem trabalhado na missão de levar a agrofloresta para todos em todas as partes, de forma incansável. Nossa experiência, em campo, nos levou à conclusão de que, para atingir escala de paisagem, a agrofloresta regenerativa precisa, urgentemente, de profissionais capacitados em sistemas biodiversos de produção agrícola. Não existem escolas ou formações estruturadas que ofereçam uma carreira em sistemas regenerativos de produção. O profissional agroflorestal é praticamente inexistente, tornando o processo de transição muito lento.

Os profissionais rurais estarão cada vez mais inseridos em um mundo globalizado e preocupado com os recursos naturais e com as pessoas, numa agricultura pujante e tecnológica. Para continuar acontecendo, o desenvolvimento rural precisa de trabalhadores que saibam, além de melhorar a produtividade, lidar com a biodiversidade, o mercado de carbono, os serviços ambientais e o desenvolvimento socioambiental. Entender e contabilizar as externalidades, ou seja, os efeitos sociais, econômicos e ambientais indiretamente causados pela prática agrícola, também é essencial para a sustentabilidade e resiliência da agricultura do futuro.

Há, ainda, um espaço crescente para a gestão da propriedade rural como um negócio regenerativo lucrativo, por meio do empreendedorismo rural. As oportunidades vão desde o gerenciamento dos recursos naturais, para o mercado de carbono e de serviços ecossistêmicos, até o aperfeiçoamento do processamento pós-colheita que agrega maior valor à produção. Sem falar no turismo rural, que vem crescendo muito nos últimos anos, especialmente devido à pandemia COVID-19. Temos um potencial enorme que precisa ser desenvolvido e que necessita de profissionais altamente preparados.

A agricultura do futuro, que caminha regenerando e potencializando a natureza, seu principal ativo, clama por profissionais dinâmicos e interdisciplinares, que compreendam os sistemas alimentares em sua totalidade, para tomar decisões prósperas e sustentáveis em longo prazo. Precisamos, de uma vez por todas, vencer o alienamento ecológico e a apatia frente aos desafios globais que vivenciamos tão fortemente no mundo todo, especialmente no universo agrícola.

Criar novas frentes de formação agrícola regenerativa e de transferência tecnológica se faz imprescindível se quisermos atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e liderar, como país, a transição regenerativa da agricultura. O Brasil tem a possibilidade de se tornar, não apenas o celeiro alimentar do mundo, mas também, o celeiro de profissionais agroflorestais que mudarão a paisagem do planeta como a conhecemos! 


* Paula Costa é Engenheira florestal com especialização em Gerenciamento Ambiental pela ESALQ – USP e bióloga pela UNESP. Premiada em 2016 pela Sociedade Brasileira de Silvicultura, fundadora da PRETATERRA.


** Valter Ziantoni é Engenheiro florestal com especialização em Gerenciamento pela FGV, especialista florestal da UNDP/ONU e mestre em Agrofloresta pela Bangor University, fundador da PRETATERRA.