31/07/2017 AMAZÔNIA

Torre Alta avança para segunda fase de monitoramento

Segundo o biólogo Adalberto Luis Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Ministério Federal da Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF, na sigla em alemão) aprovou uma proposta de 6 milhões de euros para a segunda etapa do projeto do observatório de Torre Alta da Amazônia. O projeto monitora os impactos das mudanças climáticas globais na floresta ao medir as interações com a atmosfera. "Para esta nova fase, ainda não há previsão de contrapartida nacional", disse, em mesa-redonda da 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "O Brasil precisa viabilizar um apoio à altura para 2018, e a comunidade científica envolvida tem que ser ouvida, a fim de verificar as atuais necessidades", alertou. 
 
O projeto Torre Alta tem 325 metros de altura e está localizado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, a 150 km em linha reta de Manaus (AM), e existe graças à parceria entre Brasil e Alemanha, com investimento inicial de R$ 26 milhões. Na primeira fase do projeto, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) investiu R$ 12 bilhões pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). "Os recursos ainda não foram totalmente alocados, mas tiveram um papel importante na construção das torres e na aquisição dos veículos", informou Val. "A parcela ainda não executada foi prorrogada até dezembro de 2018, quando poderemos finalizar toda a parte de infraestrutura”. Os recursos aconteceram entre 2009 a 2016. 
 
A Torre Atto é um experimento coordenado pelo Inpa, unidade de pesquisa do MCTIC, em conjunto com os institutos alemães Max Planck de Química e Max Planck de Biogeoquímica. Inaugurado em 2015, o projeto já publicou 52 artigos científicos em torno do estudo do clima na Amazônia. "No momento, temos 99 brasileiros e 88 estrangeiros, a maioria deles alemães, entre pós-doutores, alunos de pós-graduação, pesquisadores e técnicos", comentou Val.
 
De longo prazo, o Atto deve monitorar o clima na Amazônia durante 30 anos, por meio da coleta de dados sobre os processos de troca e transporte de gases entre a floresta e a atmosfera. O complexo é composto por mais duas torres de 80 metros, que, desde 2012, fazem medições de aerossóis e dos parâmetros do tempo, como temperatura, vento e radiação solar, em alta resolução. O observatório principal ainda possibilita pesquisas inéditas de química da atmosfera, processos de transporte de massa e energia na camada limite atmosférica e processos de formação e desenvolvimento de nuvens.
 
Ex-secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTIC, o climatologista Carlos Nobre abordou formas de a cooperação internacional contribuir para consolidar a capacidade científica da Amazônia. "A ciência e tecnologia da antiga Alemanha Oriental era muito defasada em relação ao resto do mundo. Então, o país fez um programa de criação de inúmeros institutos, mais de 20, do zero. Quando iniciamos o LBA [Experimento de Larga Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia], não existia o Max Planck de Biogeoquímica, que hoje é um dos líderes desse observatório pelo lado europeu”. Para Nobre, o modelo alemão pode ser aplicado em diversos países em desenvolvimento. "Eu sempre me perguntei: por que não podemos fazer isso no Brasil? O que os experimentos internacionais poderiam legar para capacitar a Amazônia como um todo?", sugeriu.  Outras propostas de Nobre dizem respeito a associar o "laboratório internacional perfeito" a programas locais de pós-graduação, tarefa cumprida pelo Atto; estabelecer parcerias com centros avançados no Brasil e no exterior para capacitação de pessoas; buscar a liderança de pesquisadores da Amazônia na maior parte dos trabalhos científicos; e viabilizar um apoio institucional de longo termo que assegure a continuidade e a consolidação do experimento, inclusive em relação à infraestrutura necessária.