05/09/2018 AMAZÔNIA

Diversidade em áreas úmidas é bem maior

Segundo estudo realizado no âmbito do programa Biota e com apoio da Fapesp, as chamadas áreas úmidas possuem cerca de três vezes mais biodiversidade do que o previsto. Alguns exemplos dessas áreas são vegetações como igapós, pântanos, campinas, mangues e várzeas que margeiam nascentes e depressões de terrenos. Ao todo, o levantamento reuniu 3.615 espécies de árvores conhecidas, a mais abrangente listagem de espécies arbóreas presentes em áreas úmidas. O estudo foi publicado pela PLOS One.
 
Os autores combinaram dados disponíveis em inventários florestais e coleções biológicas sobre os nove países em que a bacia amazônica se faz presente. “A lista com o nome de todas as espécies é a grande contribuição desse trabalho, que tem acesso aberto. Com ela, será possível avançar em estudos futuros, pois há um vazio de conhecimento botânico sobre as áreas úmidas, principalmente nos afluentes dos rios Solimões e Amazonas. Se houvesse mais inventários o número de espécies poderia triplicar de novo rapidamente”, disse Bruno Garcia Luize, primeiro autor do artigo e doutorando no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, com bolsa da Fapesp. 
 
O pesquisador afirma que estudos anteriores focavam apenas florestas alagáveis das várzeas dos rios de água branca e de planícies de inundação. Desta vez, incluímos dados de igapós, de campinas alagadas e de mangues, por exemplo. “Além disso, conseguimos adicionar informações da calha do Solimões-Amazonas, de afluentes importantes a partir de raros inventários florestais nos rios Purus, Juruá, Madeira e vários outros”. Para os pesquisadores, a alta quantidade de espécies arbóreas é indicador de que as áreas úmidas têm papel importante no mecanismo de manutenção e geração de diversidade na Amazônia.
 
As florestas de áreas úmidas têm grande sazonalidade, com variações de períodos de seca e de alagamento, quando as árvores podem ter até oito metros de inundação. As áreas úmidas podem ser consideradas filtros ambientais que selecionam indivíduos e espécies capazes de tolerar inundações e secas recorrentes durante sua vida útil. “É um ambiente incrivelmente bonito. O igapó, por exemplo, é uma das imagens mais emblemáticas da Amazônia. Por quatro ou cinco meses, os embriões das árvores ficam submersos enquanto se desenvolvem. Isso ao mesmo tempo em que macacos passam pelas copas das árvores ou um boto-rosa se alimenta de peixes dentro da floresta”, disse Garcia.
 
O total de espécies de áreas úmidas da Amazônia engloba 53% das 6.727 espécies confirmadas em estudo mais recente da flora arbórea de toda a Amazônia. Para pesquisadores da Unesp esta proporção de árvores acontece pelo intercâmbio entre as espécies. Segundo Garcia, essa diferença leva a crer que ocorre um ajuste fisiológico ao longo da vida das árvores, ou que as populações que cresceram nas áreas úmidas já estão se adaptando para aquele ambiente.
 
A América do Sul é considerada a região com maior quantidade de áreas úmidas, ecossistema fundamental para o balanço de água doce no planeta. Os pesquisadores destacam que é preciso entender melhor a variação entre as características, sejam metabólicas ou fisiológicas, das espécies que vivem tanto em terra firme como em zona úmida. O artigo The tree species pool of Amazonian wetland forests: Which species can assemble in periodically waterlogged habitats?(doi: 10.1371/journal.pone.0198130), de Bruno Garcia Luize, José Leonardo Lima Magalhães, Helder Queiroz, Maria Aparecida Lopes, Eduardo Martins Venticinque, Evlyn Márcia Leão de Moraes Novo, Thiago Sanna Freire Silva, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0198130
 

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